Opinião
Claro, não se trata de definir. Não tomaria para mim a função que nem mesmo o livro pode cumprir. Mas se me fosse lançado o desafio, eu diria que o texto de Jóe José Dias é sustentado pela coragem. A escolha desse substantivo não se deve apenas à ousadia da pesquisa (isso não garantiria uma reflexão profunda), mas, principalmente, à responsabilidade da qual o autor não se furta em momento algum. Analisar as obras de dois ícones da cultura caipira brasileira (Monteiro Lobato e Mazzaropi) para nelas apontar o que há de estereotipia, e não apenas de triunfo estético, exigiu de Jóe Dias não somente o estudo da trajetória do cinema e da literatura que cercaram os dois artistas, mas, acima de tudo, exigiu responsabilidade discursiva no que toca à política e à história brasileiras que serviram como pano de fundo para o trabalho dos dois autores do Jeca. E é justamente nesse pano de fundo histórico e, sempre, ideológico que o autor das páginas presentes elabora a denúncia de um projeto caricatural de formatação do caipira paulista empreendido por Lobato e Mazzaropi. Jóe Dias também assumiu com bastante propriedade o risco do tom engajado que as abordagens marxistas às vezes induzem (bem sabemos que apenas se expõem à roda-viva dos debates politicamente marcados aqueles que muito se dedicaram à compreensão do método dialético).
DE LOBATO E MAZZAROPI …todo caipira tem um pouco se revela uma importante contribuição ao debate que se ocupa da cultura caipira, na medida em que propõe um recuo epistemológico que permite ao leitor perceber que o jeca pode não ser um preguiçoso; e que por trás dessa preguiça inventada pode estar dissimulado todo um julgamento de ideais historicamente marcados.
Cristiano de Sales, Doutor em Teoria Literária
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8372496598169395
















